domingo, 21 de fevereiro de 2010

"O Ato de Refletir"

Ensaio,
O Ato de Refletir: para além do meramente pensar


Edilaine R.
21 de Fevereiro de 2010

As informações percorrem o mundo, atravessam fronteiras e possibilitam entrar em contato com conhecimentos antes poucos transmitidos. É a globalização alcançando pessoas e lugares longínquos – um movimento sem volta.
Se por um lado – do meu ponto de vista positivo – atualmente nos deparamos com a crescente enxurrada de informações advinda por todos os lados – livros, textos, jornais, televisão, internet. Por outro lado, é fato que reflexões diante de muitas dessas informações não se fazem presentes; corre-se o risco de perder as referências e conseguinte esmagamento da subjetividade (PINHEIRO, Yan).
Sabemos que em nossa sociedade algumas demandas e necessidades são criadas, assimiladas e apoiadas por grupos dominantes, que determinam as regras do jogo.
Especialistas e doutores de diversas áreas (biológicas, humanas e mesmo exatas) surgem para nos dizer o que comer, vestir, beber, como se comportar, educar, exercitar, medicar . Estes surgem crentes de sua visão de homem e mundo com seu conhecimento teórico dizendo-se cientistas e estudiosos – em geral os são – mas, são só o que são. Esquecem-se de que algumas “verdades são relativas”, que são humanos e a diversidade humana com sua rica singularidade precisa ser respeitada.
De um modo geral, percebemos que não interessa aos grupos dominantes que a classe popular – ou o povão – possa ter poder decisório. Esses grupos alegam que o povo tudo ignora quando se trata de questões que fogem do seu conhecimento. Então, segundo eles é melhora zelar ou cuidar para que não se percam em suas escolhas – já que são ignorantes e carentes de informação.
É neste ponto que o ato de refletir se insere.
Importa trazer a baila temáticas e formas de pensar que possam interferir na vida cotidiana das pessoas.
Um olhar atento, uma analise crítica a respeito de uma situação social é tarefa de todos e não somente de um “grupo de especialistas”. Assim, filosoficamente pontua uma diferença entre passividade e ação, respectivamente.
Refletir gera espontaneamente a questionamentos. Questionar as normas ou as regras de comportamento, nos ajuda a analisar valores, princípios e condutas próprias e sociais.
Através dos questionamentos encontramos afinidades ou distanciamento de um dado modelo de comportamento. Outro ponto a questionar, modelos de comportamentos são sempre passíveis de questões, pois os modelos sempre estão a serviço de algo ou alguém – consciente ou inconscientemente.
O refletir caminha para buscar o pensamento – vários pensares para lá ao longe realizar uma escolha coerente e desejável desalienada. A sabedoria pode vir junto ou não, depende qual caminho se escolhe trilhar.
Desse modo, o caminho a trilhar é ir para além das aparências. Nesse sentido Nietzsche nos convida a pensar, "Todo homem que dotado de espírito filosófico há de ter o pressentimento de que, atrás da realidade em que existimos e vivemos, se esconde outra muito diferente, e que, por conseqüência, a primeira não passa de uma aparição da segunda". (NIETZSCHE e apud BUZZI, 1972, p. 6).
Portanto, refletir é caminhar para além da mera formalidade de pensar. Talvez, o termo desnudar traduza melhor a minha ideia. Logo, refletir leva a um desnudamento e expõe a pele – fato, a situação, o fenômeno.
Olhar sobre estes com cuidado é necessário e de preferência a partir de vários referencias – assim não nos deixa com a “perna manca”; ou presos a um conceito fundamentalista – acreditando ser único e absoluto.
Afirmar conceitos e posições teóricas sem um olhar cuidadoso para outros conceitos e ideias sempre levam a um único caminho – o do fundamentalismo, da intransigência e intolerância. E os caminhos únicos perdem sua riqueza, pois deixa à deriva e segrega outras formas de pensar – marginalizando-as.
Amadurecemos na medida em que temos a liberdade – diferente de liberdade vigiada - para fazer escolhas próprias. Paulo Freire sabiamente nos diz, podemos ser “homem-objeto” ou “homem-sujeito” da nossa história.
As situações e fenômenos cotidianos estão aí para serem refletidos. A disciplina de pensar a partir de si mesmo – consciência desalienada de saberes construídos para perpetuar o poder de uma minoria - permite captar o mundo e até transformá-lo. Possibilita sair da posição de lagarta para a de borboleta – metamorfosear.
Aqueles que detém conhecimentos acerca de sua área de estudo, mas que não conseguem reconhecer fraturas em sua teoria e criticá-la não avança em sua própria forma de pensar. Logo, segundo BELLO, J.L.P. (1994, Vitória), “possuir conhecimento não é o bastante para a transformação”. É preciso mais.
Necessário possibilitar ao outro sair da condição de “homem-objeto” e tornar-se “homem-sujeito” - mente pensante e transformadora.
O Estado, representado pela classe dominante, pela elite política do país não fomenta formar pensadores e indivíduos críticos, já que estes podem colocar em risco o status quo. Logo, alguns professores e mesmo muitos profissionais, ainda que de modo inconsciente realizam o papel de impedir o surgimento de mentes criativas e pensantes, pois estes mesmos estão presos a uma camisa de força fortemente ideológica e invisível, ou falando de outro modo, estão mobilizados em sua subjetividade.
O pensamento que diverge do pensamento dominante incomoda ao Estado e segundo este precisa ser urgentemente contido, se for preciso punido. Michael Foucault explicita com perspicácia essa idéia em seu livro Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1975, p.26), “Essa sujeição não é obtida somente pelos instrumentos da violência ou da ideologia; pode ser muito bem direta, física, usar a força contra força (...)”.
Em uma palavra, a “mecânica do poder” espera fielmente a docilidade do sujeito – assujeitando-o através da idéia que este nada sabe - e se não sabe deve-se disciplinar-se, “esta fixa, imobiliza e regulamenta os movimentos”, (FOUCAULT, 1975, p.181 ) segundo as regras e normas daquele que sabe, que conhece.
Dizendo de outro modo, o assujeitamento advém da não permissão a reflexão porque não é permitido questionar, ou ainda nas palavras de FOUCAULT, “as disciplinas são o conjunto das minúsculas invenções técnicas que permitiram fazer crescer a extensão útil das multiplicidades fazendo diminuir os incovenientes do poder que justamente, para torná-las úteis, deve regê-las” (1975, p.181).
Daí o fato de muitas escolas, professores e profissionais estabelecerem limites para a reflexão. As singularidades individuais evaporam – todos tem que pensar de modo semelhante – ainda que na aparência possam ser diferentes.
O crescimento da força individual é logo aparado através do processo de submissão – já que este é colocado em funcionamento a partir das demandas de regimes políticos, instituições (escola, família, sociedade, sindicatos, associações, conselhos de classe).
Fica inserido aqui que não basta ao indivíduo e ou ao Profissional deter conhecimentos específicos acerca de sua área de conhecimento, se este não consegue criar as próprias questões referentes aos fenômenos e realidades que ocorrem a sua volta.
A importância de ir em busca de novos conhecimentos é permitir uma nova reflexão e não meramente ser reprodutor de pensamentos de outros.
Em suma, é preciso responsabilizar-se por suas reflexões, sua história e tornar-se protagonista dela, bem como estimular e mobilizar o outro ao ato de refletir e pensar, ter apreço e buscar as próprias verdades.

Referências:

BELLO, José Luiz de Paiva. O que é filosofia. Pedagogia em Foco, Vitória, 1994. Disponível em: . Acesso em: dia mes ano.

BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar. Petrópolis: Vozes, 1974. 240 p.

CALLIGARIS, Contardo. O Moralizador. Disponível em: http//:www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2003200829.htm

CIVITA, Victor (ed.). Friedrich Nietzsche: obras incompletas. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983. 416 p.

FOUCAULT, Michael. Vigiar e Punir. 23ª.ed. Rio de Janeiro: Vozes, 1975

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. 79 p.

WALBER, A L.S. e GARAY, Ângela B.S..O “Discurso da Vida Saudável” na Cultura Organizacional: A Subjetividade dos sujeitos em Foco. Análise, Porto Alegre, v. 20, n. 1, p. 21-33, jan./jun. 2009. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/teo/ojs/index.php/face/article/viewFile/6199/4491

PINHEIRO, Yan. O Esmagamento da Subjetividade e a Crise de Referências. Disponível em:
http://www.pedagobrasil.com.br/psicologia/oesmagamento.htm

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