O MANEJO DA INTERPRETAÇÃO NA PSICOTERAPIA BREVE DE ORIENTAÇÃO PSICANALÍTICA
Edilaine R.
Psicóloga Clínica, Especialista em Psicoterapia Breve e Psicopatologia Psicodinâmica
1. Introdução
Psicoterapia é um termo utilizado para definir qualquer tratamento com base nos métodos e propostas psicológicas.
ZIMMERMAN (1999) observa que Freud não diferenciava as denominações ‘psicoterapia’ e ‘psicanálise’ , utilizando-os para “caracterizar o método psicológico” desenvolvido por ele. No entanto teóricos posteriores a Freud buscaram diferenciar a psicanálise da psicoterapia. Assim a psicoterapia fornece ampla possibilidade psicoterápica seja referencial psicanalítico ou de outra abordagem teórica.
A psicoterapia breve de orientação psicanalítica é uma modalidade terapêutica que atualmente vem sendo levada em consideração dada de promover resultado verdadeiro.
A elaboração deste trabalho não pretende esgotar o tema. Tem como objetivo apresentar um caso clínico e centrar-se no manejo da interpretação, pois esta é uma ferramenta terapêutica muito útil na psicoterapia breve (PB).
Este trabalho está composto em duas partes. A primeira consiste em apresentar o trabalho, o objetivo e fundamenta-lo teoricamente a partir do caso clínico em questão. Ainda nesta parte tratamos de compreender o quanto a Psicanálise contribui para a psicoterapia breve observando alguns aspectos do inconsciente. Também tratamos dos aspectos do método e da técnica. Explicamos o trabalho da interpretação na psicoterapia breve.
Entendemos que diferentemente da clínica tradicional – individual – precisamos manejar adequadamente a interpretação, pois nesta modalidade de psicoterapia trabalhamos em cima do foco – previamente definido.
Na segunda parte descrevemos o contexto em que o caso clínico se desenvolveu, bem como a apresentação e análise propriamente dita deste caso.
Finalmente, concluímos o trabalho ressaltando a importância desse tipo de modalidade psicoterápica.
2. CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE
2.1 Contribuição da Psicanálise na psicoterapia breve
A descoberta do Inconsciente por Sigmund Freud vem possibilitando compreender a complexidade dessa força e que leva o sujeito a agir sem que o saiba.
Com Sigmund Freud (1905) conseguimos entender que o sistema inconsciente é repleto de representações pulsionais – “representações inconscientes” – e visa primordialmente a descarga de tensão e busca de prazer. As “representações inconscientes” são formadas por imagens – acústicas, visuais e táteis – impressas no inconsciente e carregados de energia.
O Inconsciente de Freud (1905) abre possibilidade frente ao desconhecido. Embora não seja possível conhecer a natureza do inconsciente, nos é possível reconhecer as suas manifestações. Essas manifestações ou como diria Freud “fenômenos psíquicos” são de várias ordens, como os sonhos, lapsos, atos falhos, chistes e sintomas, ou seja, os fenômenos psíquicos possibilitam investigar o inconsciente e “pode levar ao descobrimento da parte oculta da mente” .
2.2 Aspectos do método e da técnica na psicoterapia psicanalítica
O método empírico psicanalítico proposto por Freud foi sendo estabelecido no decorrer das práticas com os seus pacientes. Assim cuidadosamente, segundo os autores MENNINGER e HOLZMAN (1982) o método ia se fazendo à medida em que ocorriam os encontros com os seus pacientes.
Pudemos observar à partir das leituras especializadas que embora Sigmund Freud tenha se preocupado com a técnica psicanalítica do começo ao final nas suas investigações , e de acordo, MENNINGER e HOLZMAN (1982, p. 22) “Freud nunca dedicou exclusivamente um livro à técnica”, no entanto, seus seguidores o realizaram. Daí, surgiram inúmeros livros que discorrem sobre esse tema.
Faz em torno de um século que Sigmund Freud escreveu sobre os princípios fundamentais da psicanálise e desde então, é seguido a risca – pelo menos – por aqueles profissionais que realizam trabalho sério .
NASIO (1995) examina que FREUD em “Psicanálise e Teoria da Libido” nos explica o seu método da seguinte forma
“Psicanálise é um método de investigação dos processos psíquicos que, de um modo ou de outro, são praticamente inacessíveis (...) método de tratamento dos distúrbios neuróticos que se fundamenta nessa investigação” (FREUD apud NASIO, 1995, p. 45 ).
Um ponto a ser observado por nosso lado é da garantia da discrição – sigilo – em troca pelo lado do paciente, da sinceridade. Outro ponto está na escuta – a “atenção flutuante” proposta por FREUD quanto as palavras, chistes, lapsos, perguntas, dúvidas e outros.
2.3 A técnica da psicoterapia breve de orientação psicanalítica
BRAIER (2000) nos propõe uma técnica para a técnica da psicoterapia breve de orientação psicanalítica. Alguns aspectos da técnica representam temas fundamentais para o seu manejo.
As entrevistas iniciais são primordiais para o sucesso psicoterápico. Os objetivos das entrevistas iniciais são os seguintes: (a) estabelecimento da relação terapêutica e (b) representa a possibilidade de criar condições para que o vínculo de confiança paciente-terapeuta se estabeleça e partir daí origine a relação terapêutica.
O autor observa que a relação terapeuta-paciente é menos distante e mais afetiva, segundo este, “por parte do terapeuta, e ao contrário do que ocorre no tratamento psicanalítico, existe uma maior proximidade afetiva” (BRAIER, 2000, p. 85). A adoção deste procedimento justifica o autor, é positivo para o processo da psicoterapia.
A coleta da história clínica consiste em buscar conhecer o sujeito. É importante conhecer a história de vida, familiar, relações no cotidiano, trabalho, lazer, situações de trauma, modos de conduta, dificuldades, e outros.
É importante que a Entrevista Devolutiva seja realizada numa linguagem clara e objetiva de modo que o paciente consiga entender o que o Psicólogo lhe transmite. Em resumo, realiza-se uma Interpretação Panorâmica, ou seja, um esboço global psicodinâmico da problemática ou conflitiva experenciada pelo paciente.
O contrato sobre metas terapêuticas é a apresentação dos objetivos a serem alcançados no processo de psicoterapia.
A duração do tratamento é dada segundo as características que compreendem determinadas variáveis, tais como: normas institucionais; limitação temporal própria do paciente ( por ex., motivo de viagem).
Comumente o objetivo e duração do tratamento é resolvida entre psicólogo e paciente no início do processo psicoterapêutico.
Outro teórico da psicoterapia breve, HEGENBERG (2004) propõe que se realize uma técnica que ele denomina de “Quatro Tarefas”.
As tarefas a que se refere HEGENBERG (2004) consistem em quatro: (1) Formular uma intervenção inicial baseada na angústia que motivou a procura por auxílio; (2) Reconhecer se há crise ou não; (3) Distinguir o foco; (4) Decidir a indicação.
HEGENBERG (2004) observa – baseado em sua experiência – que a quantidade de sessões suficientes para a resolução das tarefas acima mencionadas ficam entre uma e quatro. Desse modo as quatro tarefas fornecem tempo para que ocorra conhecimento mútuo e o estabelecimento de vínculo terapêutico. Abaixo descrever-se-á resumidamente as principais características de cada tarefa.
Na primeira tarefa a formulação de uma intervenção inicial é baseada na angústia que motivou a procura por auxílio, bem como insiste em reconhecer a fonte da indicação (instituição, professor, amigo, ex-paciente, médico, profissional de outras áreas), perceber a transferência, escutar o motivo da consulta, examinar as características da pessoa como o estilo (concentra uma construção estética, vestuário); postura (o que o corpo fala); fala (coerente ou não, em suma representa o processo de pensamento; tom de voz) e realizar a avaliação da personalidade.
Na segunda tarefa busca-se reconhecer se há crise ou não, se a apresentação de sintomas e angústia não configura crise. Esta crise representa uma ruptura – corte – na subjetividade do indivíduo promovendo desse modo uma quebra no sentido de vida.
A terceira tarefa permite distinguir o foco. Este foco do trabalho terapêutico está ligado a crise ou a alguma característica associada ao motivo da consulta.
Finalmente, a quarta tarefa possibilita decidir a indicação. Esta tarefa representa decidir se haverá indicação para a psicoterapia ou não. A modalidade de psicoterapia pode ser: breve, ou de apoio, ou longa.
Para que ocorra a indicação da psicoterapia breve alguns critérios são observados como: (a) crise; (b) possibilidade de atravessar a crise; (c) possibilidade de focalização; e (d) demanda de análise.
A partir desses itens de acordo com HEGENBERG (2004) realizar-se-á a continuidade do processo de psicoterapia ou o encerramento das quatro tarefas. Portanto, em linhas gerais a conclusão das quatro tarefas possibilita ao indivíduo perceber o que acontece consigo, conhecer seu conflito atual e a relação deste no passado e presente, bem como saber se há crise ou não, se pretende mudar ou apenas voltar ao ponto de equilíbrio.
2.4 O trabalho da interpretação no atendimento clínico em psicoterapia breve
O atendimento clínico se dá a partir de necessidades constatadas no decorrer de entrevistas (modelo proposto por OCAMPO, 1995). Essas entrevistas são valiosas, uma vez que a partir delas extraímos os dados e podemos constatar que o sintoma advém da dinâmica psíquica do indivíduo. Nesse caso, há indicação – encaminhamento – de intervenção terapêutica para este indivíduo.
O trabalho da psicoterapia breve consiste compreender a problemática central, a dinâmica do conflito que está calcada nas relações, bem como desfazer os mecanismos de defesa e elucidar as fantasias inconscientes, além de ajudar o indivíduo a perceber e elaborar as suas ansiedades e conflitos.
A possibilidade de elaboração de conflitivas viabilizam o desenvolvimento emocional deste indivíduo. Este desenvolvimento se dá quando procedemos de modo a clarear a situação, mostrando e pontuando a necessidade de desatarem os nós formados, as dificuldades (FREUD, 1937).
Como observado anteriormente, o trabalho de psicoterapia breve começa com uma queixa trazida, e ao psicoterapeuta cabe a escuta e advém dela, a interpretação, a possibilidade de desemaranhar a teia de problemática que o sujeito cria em torno de si.
O olhar analítico permite que vejamos os nós formados pelo sujeito. Os nós ou conflitivas são geralmente, decorrente da história de vida de cada um. Esses nós são desatados – desfeitos – no decorrer das sessões quando intervimos interpretando. Sempre interpretamos tornando consciente o inconsciente.
A interpretação é de fato ação do analista na clínica. Na psicoterapia breve (P.B.) não é diferente, a interpretação se torna importante, a interpretação se torna importante ao longo do tratamento, porém observando sempre que está será em torno do foco.
LAPLANCHE e PONTALIS (1996) destacam que a interpretação está no cerne do ensinamento e da técnica freudiana. Os autores entendem que a interpretação é uma investigação analítica que possibilita trazer esclarecimento do sentido latente de um dado material – conteúdo – trazido pelo cliente.
Em essência a interpretação é capaz de tornar consciente o conteúdo inconsciente (fantasias, mecanismos, angústias, desajustes, conflitos).
Através da escuta analítica não prestamos atenção ao assunto posto, e sim nas ligações que tem os assuntos postos, como afirma HERMAN (1991, p.35), “ (...) a sucessão dos temas, assim percebida, acaba por revelar uma espécie de área comum, ainda que em negativo, sobre a qual vamos centrar nossa interpretação.” Ficamos atentos – atenção flutuante – as palavras são colocadas ocultamente. Na compreensão do oculto, do inconsciente, interpretamos.
Se por um lado, a interpretação não é indução de ideias, sentimentos e atitudes, trazidas pelo indivíduo. Retiramos, o véu que oculta a dinâmica intrapsíquica. A interpretação é dada como observa HERMAN (1991, p.39) “(...) é bom que já se adiante, em doses homeopáticas, através de pequenos toques emocionais, sem induzir ideias ou sentimentos através de pretensas revelações magistrais”.
BRAIER (2000, p.101) observa que embora na P. B. se utilizem outros tipos de intervenções (perguntas, sugestões),a interpretação é sem dúvida “o elemento terapêutico essencial” .
Interpretamos tudo que o indivíduo traz para a sessão, seja as falas, os sonhos ou as ações, como por exemplo, as faltas, os atrasos. Porém, preocupamos em cuidar para que as interpretações não sejam “profundas” já que estas induzem à dependência regressivas e de acordo com BRAIER
“Quanto à profundidade, minha impressão é de que habitualmente é limitada pelas próprias características do enquadramento (...). Além disso, interpretações “profundas” podem, em certas ocasiões, induzem a estados regressivos de certa consideração” (2000, p.101).
Para controlar a regressão BRAIER nos explica o seguinte procedimento
“Trata-se de não polarizar na direção que não fomente a regressão, dependência e a insegurança, e ao mesmo tempo de chamar a atenção do paciente para seus aspectos adultos ou mais bem integrados e para suas possibilidades evolutivas e autônomas” (2000, p. 112).
Isto significa que precisamos mostrar ao indivíduo aspectos adultos de si no momento atual – para que se possa controlar a instalação da regressão.
Importa lembrar que não devemos enfatizar aspectos infantis do indivíduo, visto que tal atitude pode fomentar a regressão.
A maneira como formulamos uma interpretação pode em grande medida ajudar o indivíduo compreender seu conflito atual.
Vale a pena destacar que na psicoterapia breve o trabalho da interpretação sempre está relacionado à situação-problema, bem como correlato ao foco do trabalho.
Também os sonhos são interpretados em psicoterapia breve, porém sempre as interpretações convergem para o foco do trabalho, este por sua vez derivado da problemática.
ROSEMBERG (1999) observa que no processo da psicoterapia quando o indivíduo (realmente) se envolve ocorrem transformações na personalidade e posterior desenvolvimento da subjetividade. Esse desenvolvimento se dá na medida em que o indivíduo vai deixando de ser o alvo e vítima de seus conflitos.
Diante desse quadro enfatizamos a importância de se trabalhar em cima do foco para que se possam elaborar elementos não resolvidos do passado e que estão reatulizados na situação-problema.
O trabalho – enquanto terapeuta – se dá na medida em que percebemos ser necessária a intervenção, ou seja, decorrente da escuta adequada. No nosso caso, utilizamos sempre a interpretação para propiciar a elaboração, a revelação e para promover transformações na dinâmica do indivíduo.
3. CASO CLÍNICO
Obs. o caso clínico foi retirado para preservar o sigilo .
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Psicoterapia Breve atualmente vem sendo adotada cada vez mais nos consultórios de psicólogos, e principalmente em instituições, por vários motivos.
Um dos motivos observados por HEGENBERG (2004) é sem dúvida a ausência de tempo que os indivíduos tem em seu cotidiano e a instituição pela quantidade de indivíduos que demandam psicoterapia. Outro ponto observado por este autor é a questão financeira.
HEGENBERG (2004) aponta que justificar a procura da psicoterapia breve a partir dos pontos acima mencionados é lamentável porque leva-se a ideia de que a modalidade sendo breve é em consequência superficial. Nada disso, observa o autor, já que segundo ele a psicoterapia breve pode ser “(...) curta duração e profunda, pode ser breve no tempo e duradoura em seus efeitos.” (HEGENBERG, 2004, p. 23).
Desse modo é possível realizar o exercício com confiabilidade e respeitabilidade que a prática da Psicoterapia Breve merece.
Para o trabalho de psicoterapia breve de orientação psicodinâmica observamos que o bom preparo do psicólogo se torna fundamental. Este preparo refere-se ao conhecimento da teoria, fundamento, método e técnica da Psicanálise
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRAIER, E.A. Psicoterapia Breve de Orientação Psicanalítica. São Paulo: Martins Fontes, 2000
FREUD, Sigmund. Construções em análise. Rio de Janeiro: Edição Stardard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, 1937, Vol. XII (Artigos sobre a Técnica)
FREUD, Sigmund. Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. Rio de Janeiro: Edição Stardard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, 1905
HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve. Clínica Psicanalítica. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004
HERMAN, Fábio. A Moldura da Clínica. In: _________ Clínica Psicanalítica: A Arte da Interpretação. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1991, Cap. 3
LAPLANCHE e PONTALIS. Vocabulário da Psicanálise. 12 edição. São Paulo: Martins Fontes, 1996
MENNINGER, Karl e HOLZMAN. Teoria da Técnica Psicanalítica. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar, 1982
NASIO, J.D.. Introdução à Obra de Freud. In: __________ Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995
NETO, Alfredo Naffat.. Édipo fala do Inconsciente. In: _________ O Inconciente. Um Estudo Crítico. São Paulo: Ática, 1985, Cap. I
OCAMPO, Maria Luiza e colab. A Entrevista de Devolução de Informações. In: _________ O Processo Psicodiagnóstico e as Técnicas Projetivas. São Paulo, Martins Fontes, Cap. 9
ROSEMBERG, Ana M.S.. Efeitos Transformadores da Clínica Psicanalítica. Uma Nova Forma de Abordar o Trabalho com os pais. São Paulo, 1999
Artigo extraído por Edilaine R., no dia 10 Ag 2004, através do site:
http://www.geocites.com/HotSprings/Villa/3170/AnaMariaSigalRosemberg2.htm
ZIMERMAN, David E.. Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed, 1999
Parabéns Di!
ResponderExcluirMuito legal isto, você é demais!
Sucesso
Beijos,
Jô